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CARLOS GOMES

Compositor e regente


O garoto nascido em Campinas cresceu com a música, viveu dias de glória como compositor na Itália e deparou com a dor da desilusão no fim da vida.
A vida do maestro Antônio Carlos Gomes poderia ser contada em uma ópera.
O espetáculo começaria com o próprio compositor entoando, sua voz de tenor lírico, o final melancólico em Belém: separado da mulher, arruinado pelas dívidas, com a mesada oferecida por D. Pedro II cortada pelos republicanos, ele aceita dirigir o Conservatório Musical do Pará. Muda-se para o Norte brasileiro, mas não assume o cargo: morre antes, aos 60 anos, pobre mas orgulhoso por ter recusado o convite do Marechal Deodoro para compor o “Hino Nacional”. Jamais poderia trair a amizade do imperador deposto.
Para se conhecer melhor, Carlos Gomes, antes devemos narrar a seguinte história:
De dizer que “Enquanto vaca der leite, negro não será livre no Brasil”, como, ironicamente o dissera o comendador Joaquim José de Souza Breves, um dos ricaços dos idos de 1880; quando, só ele, possuía mais de 6 mil escravos (negros); não condiz com o que viria a acontecer na realidade.
Alguns anos depois, esse mesmo comendador, ex-traficante de escravos, com o que fizera fortuna, lamentava, deprimido, que, se em 1887 a sua contabilidade acusava existir 250.000 arrobas de café, dois anos depois esse número de arrobas caíra para a soma pífia de apenas 30.000 e não havia mais a mão-de-obra para a colheita.
História como esta, que ocorreram aos milhares pelo Brasil afora nos fins do século XIX, dão conta de que a luta pela libertação da escravatura fora para valer e rendera modificações profundas nos hábitos e costumes de nossa sociedade.
Aí estão as manifestações abolicionistas e as peças literárias e musicais documentando aqueles episódios e aquelas transformações.
“A abolição da escravatura, em 1888, surpreendeu Carlos Gomes compondo “Lo schiavo”, que continua sendo tratada como a nossa ópera ou peça musical abolicionista”. Na ocasião, foi Visconde de Taunay que idealizou o cenário – para o que pôde contar com a colaboração de amigos importantes e engajados na luta abolicionista, como a do próprio engenheiro André Pinto Rebouças – que tinha por objetivo principal retratar com a maior fidelidade possível o que aconteceria entre os negros no Brasil ao longo do século XVIII.
A proposta era tentar colocar negros em cena de acordo com a versão original, muito embora libretistas como Paravicini, para agradar e atrair a colônia italiana, preferiam que os índios ocupassem o lugar dos negros nesse espetáculo. “Lo Schiavo – O Escravo”, de acordo com que nos relata Clavor Filho, foi levado à cena no Brasil e não na Itália como muitos admitem, em 1889. Contudo, o recrudescimento da luta pela abolição total, “já e agora”, cuja campanha avançava a passos largos no Estado do Ceará, propicia o momento que acabou culminando com decretação da liberdade dos escravos negros daquele Estado quatro anos antes da assinatura da “Lei Áurea”.
Carlos Gomes não consegue ocultar o seu entusiasmo, compondo, “na ocasião, o hoje pouco conhecido Hino do Ceará Livre, peça musical significativa, que foi lembrada por um punhado de pesquisadores de Brasília e posta no álbum Banda de Música de Ontem e de Sempre, da FENAB – Federação Nacional de Associações Atléticas Banco do Brasil, em 1983, prenunciando os preparativos de seu centenário”.
Carlos Gomes está incluído no “Livro Mão Afro-Brasileira”, organizado por Emanoel Araújo, na parte confiada a Clavor Filho. Como a historiografia oficial sempre deixou de nos revelar o quanto foi importante para a destruição total do estatuto do escravismo, julgamos ser justa a colocação de “Carlos Gomes” nesse painel, no qual se procura falar de tudo que valoriza e enaltece a presença e a contribuição da etnia afro-brasileira.
Futuros pesquisadores e estudiosos de nossa afro-brasileira poderão dar continuidade e aprofundar estudos que levem o povo brasileiro a outras descobertas sobre si mesmo e sobre a nossa história.

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